Vento de Chuva

O barulho da chuva batendo no teto e o cheiro de terra molhada envolviam Dirceu completamente. Lembrava-se que na infância a chuva vinha com escuridão e sentia-se oprimido pelo peso das nuvens, mas após uma vida inteira no escuro a chuva forte era leve e fresca.

Nonô estava deitado ao seu lado, Lobita aos seus pés. Não sabia qual a cor de cada um de seus cinco gatos, mas reconhecia todos eles pela textura do pelo, miado e o formato do rabo. Quando estava triste eram eles que aliviavam sua dor. Andava pela casa sempre acompanhado, quase como guias de navegação, principalmente depois que sua esposa adoecera.

Maria, que sempre fora seus olhos e apoio seguro, agora precisava de mais cuidados que ele e seus filhos levaram-na para um lar de idosos, Dirceu também poderia ir se quisesse. Mas como deixaria um ambiente que já lhe era familiar? Como poderia abandonar seus gatos e sua vida ativa?

Diariamente, José, o taxista da rua, conhecido de longa data, buscava-o às nove da manhã e o levava até o Lar Nova Esperança onde ele passava horas conversando com Maria e praguejando os filhos por separá-los. Sem poder vê-la, um toque suave em seu rosto o confortava. Em momentos de lucidez ela respondia com uma piada e Dirceu se comovia com o som de sua risada, sentia falta de seu senso de humor, os gatos não eram lá muito engraçados.

Mas a cada dia ela se esquecia um pouco mais. Demorava a lembrar-se do neto, depois da filha mais nova, já se esquecia do primogênito. Um dia esqueceu-se também de Dirceu. Dirceu continuava suas visitas mesmo assim, mas já não podia tocá-la. Logo tampouco escutava sua voz.

Em casa sozinho, velho e cego, os trinta e três graus do verão pesavam tanto quanto as nuvens de sua infância. Já não tinha o brilho do sol para conforta-lo ou a alegria de Maria que amava o calor. Até os gatos o abandonavam, buscando o piso frio da lavanderia pra se refrescar.

Quando sentiu vir da janela da sala o vento de chuva, foi como um abraço. Respirou profundamente, e ao caminhar até o escritório ouviu os gatos se aproximarem. Abriu a janela e com cuidado tateou a escrivaninha até encontrar a chave da primeira gaveta. Lá estava a pistola que compraram depois que ladrões invadiram a casa. Foi Maria quem quisera a arma.

Encontrou as balas e com alguma dificuldade as encaixou, encontrou a trava e liberou. Sentou-se na poltrona e ouviu a chuva começar. Estava feliz. Nonô ao seu lado, Lobita ao seus pés. Chamou Paquita, Rochele e Elvis, que vieram correndo de onde é que estivessem. Puxou o gatilho e o som do trovão reverberou pela casa inteira.

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