Carta Ácida

Não gostava de cozinhar pros outros. Não. Preferia cozinhar só pra mim. Colocar todos os temperos sem me preocupar se você gosta de coentro ou se errei a mão no sal. Mas agora cozinhar pra um parece uma piada. Sempre tem comida demais. O frango tá no forno, com molho de espinafre, como aquele da receita que a gente fazia, mas nem sei mais se to com fome. Tinha pensado em pedir algo, mas odeio delivery. Você é quem gostava de delivery. Agora tô aqui, fazendo coisas que você gostava, dormindo com ar condicionado. Com exceção do cigarro. Você odeia cigarros. Parte de mim fuma pra te irritar mesmo que você nunca saiba. Assim como bati o carro sem que você soubesse, ou como meu gato morreu sem você ficar sabendo. O sol ainda nem se pôs e já tô na metade da garrafa de vinho numa quinta-feira. O engraçado é que achei de verdade que ia tirar isso de letra. Você sabe, a vida sem você. Mas não tô tirando de letra. Adotei um cachorro em vez disso. Um cachorrão como sempre te falei que queria e você nunca achou uma boa ideia. Você tava certo sobre isso, foi uma péssima ideia. A filha da puta acabou de comer o cocô do gato. De novo. E tive que parar de cozinhar meu frango-pra-um pra tirar da boca dela. Talvez foi isso que tirou meu apetite. Quando você acordou um belo dia e decidiu que não era mais pra você achei que ia tirar de letra. Realmente não sou pra você. Você nunca quis fazer parte da minha vida e já sabia que você não desfrutava da minha companhia há um bom tempo. Tudo que queria que fizéssemos juntos era demais. Afinal a gente morava juntos, isso é junto o suficiente né? assistir Friends e comer frango com espinafre em silêncio cada noite. O irônico é que não queria um cachorrão de verdade. Queria um filho. Um filho seu. Imagina a merda que não ia ser isso. Assim como a carta de amor que te pedia não era uma carta de amor. Queria um pedido de casamento. Você fez bem em terminar porque sejamos sinceros, o que foi que fiz comigo nesses quatro anos? Fiquei quietinha no meu canto pra que minha presença não fosse presença demais pra você. Isso de traumas de infância é dureza mesmo né? O medo de que todo mundo que amo vai desaparecer sem aviso prévio. E foi exatamaente isso que aconteceu. Um belo dia, acabou. Faz quatro anos que não escrevo e não era assim que pretendia voltar. Ácida. Mas salguei a porra do frango e é assim que me sinto. Porque por quatro anos você foi minha prioridade e você nem sequer deu uma chance pra gente conversar sobre o que havia de errado. Mas não se preocupe. A errada aqui sou eu por ter esquecido de mim. Ninguém merece a responsabilidade por alguém que esqueceu de si. A errada sempre sou eu, não é mesmo? Eu que não entendi direito, que sou sensível demais. Quando você começou a chorar e falou que queria conversar eu já sabia que era o fim. A primeira coisa que me veio à mente foi “o desgraçado ainda vai botar a culpa disso em mim”. Mas você me surpreendeu dessa vez. Você não fez isso. E não posso nem começar um barraco porque tenho inteligência emocional, certo? Somos só duas pessoas que não foram feitas uma pra outra. Acontece. Agora é seguir em frente. Mas não tá fácil assim. Porque todas as referências dos últimos quatro anos da minha vida apontam pra você. Todas as histórias, anedotas, curiosidades. E me pego, vez ou outra, abrindo nossa conversa do whatsapp e pensando que queria te ver mais uma vez, conversar mais uma vez. Mas não ia mudar nada né? É o que é. E me pego pensando o que você queria dizer com “te amo mais” se você nunca me disse isso olhando nos olhos. E me pego pensando se sua mãe realmente gostava de mim. Pelo menos seu cachorro gostava. Isso sei. E agora não sei o que fazer com a minha cachorra,  não sei o que fazer comigo, não sei o que fazer com a nossa história. Quando tive que reorganizar minha vida do dia pra noite pensei que era como uma gata, sempre caindo de pé. Em uma semana consegui um apartamento e tinha compromissos marcados pra ocupar minha cabeça por três meses. Compromissos marcados há tempos que você já não fazia parte de qualquer forma. Acho que isso diz bastante sobre o estado da nossa relação né? Mas agora os três meses passaram e só tenho eu mesma e dias infinitos. Minha professora de contos me dizia que a personagem principal não pode terminar a história no mesmo lugar que começou, mas realmente não sei onde posso terminar essa história. Tenho uma boa consciência de mim mesma sabe? Mesmo que meu pai não acredite. Consciência da real dimensão dos meus problemas (pequena), do quão burguesas (apesar de anti-capitalistas) são minhas crises. Mas isso não melhora minha dor. Tô aqui tentando ser uma escritora que mal escreve, uma artista que mal pinta, uma ativista que mal lê jornal. Mas era muito boa em te amar. E o que sobrou agora? Eu respondo essa. Sobrou o espaço que preciso há tanto tempo. Mas é tanto espaço. É tão vazio. Vou sobreviver, disso não me resta dúvida. Só precisava tirar esse gosto amargo de mim. E espero que você esteja feliz. Porque foi a decisão certa. Logo vou entender isso também. Logo.

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